A triunfar na China – Pedro Rodrigues

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Pedro Rodrigues com a camisa do Hainan Boying FC.

O futebol chinês tem sido acolhedor de diversos estrangeiros nas últimas temporadas, são diversos os jogadores, preparadores e treinadores que tem ido para ajudar na evolução futebolística, do país que busca num futuro distante ser a nova potência do futebol mundial.

E não somente na Super Liga Chinesa a presença desses profissionais de grande qualidade se faz presente, já que na China League Two temos a presença de alguns estrangeiros que tem triunfado e obtido grandes resultados com as suas respectivas equipes, inclusive outro portugueses como Manuel Cajuda, Vítor Pontes, Paulo Santos e Rui Mota.

Sendo assim fomos atrás de um jovem auxiliar técnico português (treinador adjunto), promissor, paciente e com a capacidade de potenciar a sua equipe, ao lado do experiente treinador Mai Chao.

Sua tarefa não é fácil, devido a barreira linguística e também a distância familiar, ele viajou 10.780 milhas para execução do seu trabalho como auxiliar e como preparador físico, na equipe recém-fundada do Hainan Boying FC. Clube da belíssima província de Haikou, fundada em 2015, que disputa a China League Two Sul (campeonato equivalente ao terceiro nível chinês) e está na 6ª posição da liga, que iniciou no mês de Abril. Pedro Rodrigues é o seu nome, natural de Vila Nova de Gaia distrito da cidade de Porto e que há três anos consecutivos está a desenvolver o seu trabalho em solo chinês, tendo passado anteriormente pela Academia de Luís Figo em Pequim.

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Pedro no estádio do Hainan.

Formado no Instituto Politécnico e na Universidade do Porto, possui a licença UEFA B – Nível II. Em 2005 No Boavista FC iniciou sua trajetória no futebol, passando por Escola de futebol Panterinhas de Gaia, CF União de Lamas, Lusitânia FC Lourosa, Leixões Sport Club. Confira abaixo a entrevista exclusiva com o treinador português Pedro Rodrigues:

Como surgiu a oportunidade para trabalhar no Hainan Boying FC?

Esta oportunidade surgiu naturalmente após ter trabalhado cerca de dezesseis meses como treinador na Figo Football Academy. Acabei por ser descoberto por um empresário, que se inteirou de todas as minhas valências e todo o percurso e trabalho que desenvolvi em Portugal e na China e, a partir daí surgiu o convite para integrar a estrutura profissional do Hainan Boying FC.

O futebol sempre esteve ligado a sua infância, como foi esse início? Quem foi a sua maior inspiração e quem são hoje os seus maiores ídolos como treinador?

Comecei a jogar futebol bem jovem na rua, como qualquer criança em Portugal e daí até iniciar-me com sete anos nas escolinhas do Futebol Clube do Porto foi um pequeno passo. Não posso dizer que tive um grande ídolo, mas sempre apreciei jogadores que demonstravam viver de uma forma peculiar o seu clube e o futebol em si, por isso e porque cresci a gostar do FC Porto, jogadores como Fernando Couto, Paulinho Santos e Rui Barros eram referências para mim. Depois, a passagem para treinador foi feita naturalmente, comecei a ver o “jogo” de outra forma e o gosto pelo “treino” aumentou tanto que foi inevitável aparecerem referências. Treinadores como José Mourinho, Carlos Queiroz e mesmo o inglês Bobby Robson, começaram por ser as minhas referências, tanto pela forma como lidavam com os media, se apresentavam socialmente, como as suas equipas jogavam e, como é obvio, pelos feitos que foram alcançando ao longo das suas carreiras.

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Pedro Rodrigues (ao fundo) comanda o treinamento no Hainan Boying.

Como tem sido para você essa experiência tão diferente na China?

Já há muito tempo que acalentava uma oportunidade como esta. Posso dizer que já fiz muitos sacrifícios pessoais e trabalhei muito para chegar até aqui, mas ainda muito caminho falta para atingir o patamar que almejo. Em Portugal, quando sentimos que algo nos satisfaz e que nascemos para fazer algo, dizemos naturalmente, como assumo sem receios, “que esta é a minha praia”. Mas muito há ainda para apreender e trabalhar para me transcender diariamente e poder atingir o nível que ambiciono, por isso resta-me ser eu, querer ser sempre mais e não viver na acomodação profissional.

Tudo tem te agradado neste início de vida em um país diferente e quais os contras de estar na China?

Se dissesse que tudo me agradava estaria a mentir. Venho de outra cultura verdadeiramente diferente, mas a China não é mesma de há 30 anos atrás, quer ser uma potência mundial em todas as áreas e isso reflete-se na sua “inteligência” em atrair profissionais de todas as áreas. Confesso, e passo a arrogância, que tenho em mim uma grande capacidade de adaptação e uma vontade muito grande em demonstrar as minhas qualificações e aquilo de que sou “feito” e, isso vêm muito do ser português, das minhas raízes lusitanas.

E quanto o trabalho realizado ao lado do experiente jogador Ji Mingyi e o do treinador Mai Chao?

Têm sido muito gratificante trabalhar e apreender com duas referências do futebol chinês. São pessoas “sensíveis” e open mind que permitem uma partilha de opiniões e experiências que só beneficiam todo o nosso trabalho.

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Pedro ao lado do líder e experiente jogador chinês Ji Mingyi.

Como tem sido a adaptação ao clube, a alimentação e a cidade de Hainan?

Tem sido excelente. Estou perfeitamente adaptado à alimentação, mas como é óbvio há coisas que nem sequer quero experimentar. Sou muito acarinhado por todos e existe uma preocupação enorme para que esteja tudo bem comigo diariamente no clube. Confesso que apesar de Hainan ter um clima tropical e não gostar de chuva, “faz sol o ano todo” e a temperatura é bastante agradável.

O que você faz nos seus momentos livres na cidade de Hainan?

Tenho por norma um dia de folga por semana e por isso ainda não conheço muito bem Hainan. Mas, sempre que posso dou um “salto” à praia, ao shopping ou então vou dar uma volta pela cidade, seja a pé ou de autocarro, que é sempre uma aventura bastante imprevisível e agradável.

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Pedro orienta treinamento na Academia Figo.

Anteriormente você passou pela Figo Football Academy em Pequim, o quanto ajuda neste momento de trabalho também na China?

A passagem pela Figo Football Academy correu muito bem e como é obvio ajudou-me imenso, pois foi aí que obtive a minha primeira experiência na China enquanto treinador e me possibilitou adaptar a novos hábitos, costumes e, principalmente, começar a apreender mandarim.

Tem alguma dificuldade nesta fase de adaptação e trabalho na China (comida, idioma, outros)?

Não tenho tido grandes dificuldades, até porque já trabalho na China desde 2015 mas, o idioma é sempre aquela “barreira” diária. Contudo, no clube tenho um tradutor que me ajuda em todos os momentos, treinos, deslocações, jogos, reuniões, entre outras atividades. Na minha vida diária, já sinto menos dificuldades, pois já começo a perceber um pouco mais de mandarim.

E como é andar no trânsito maluco na China?

Nesta cidade, tenho a sorte de viver a cerca de 10 minutos a pé do centro desportivo onde trabalho todos dias, por isso não passo por muitas dificuldades. Mas, sem duvida que Hainan é uma típica cidade chinesa, com muito trânsito nas “horas de ponta” e muita gente com mota elétrica e bicicleta.

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Pedro no caótico trânsito chinês..

Tem alguma dificuldade nesta fase de adaptação e trabalho na China?

Não tenho tido grandes dificuldades, até porque já trabalho na China desde 2015 mas, o idioma é sempre aquela “barreira” diária. Contudo, no clube tenho um tradutor que me ajuda em todos os momentos, treinos, deslocações, jogos, reuniões, entre outras atividades. Na minha vida diária, já sinto menos dificuldades, pois já começo a perceber um pouco mais de mandarim.

Como é o seu dia a dia no Hainan Boying FC?

Como indiquei anteriormente, tenho por norma uma folga por semana, que é a segunda-feira. Os outros dias, são passados desde de manhã bem cedo no complexo desportivo, ginásio, campo de treinos ou em reuniões, seja a recuperar jogadores, organizar e planificar treinos e a estratégia semanal, a estudar adversários, visualizando vídeos, ou até mesmo trabalho do foro pessoal. Gosto muito de ler, “refletir”, idealizar novos exercícios e procurar novos conteúdos, novas ferramentas informáticas, para estar atualizado e preparado para todos desafios que me possam surgir, como esta oportunidade que agarrei no Hainan Boying FC.

Qual é projeto do clube para as próximas temporadas? E qual o tempo do seu contrato com a equipe?

Este clube é recente, existe há 3 anos, sendo que esta é a segunda época como profissional e, naturalmente este ano o objetivo passa por realizar um campeonato tranquilo que permita criar bases para que num futuro possa lutar por uma subida de divisão. Eu tenho contrato para esta época, mas se a direção do clube e eu estivermos satisfeitos com o trabalho realizado, temos a possibilidade de efetuar uma renovação contratual.

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Torcida do Hainan lota estádio na China League Two.

Habituado hoje a China, como você ver o nível da China League Two?

A China League Two esta a dar os primeiros passos como liga profissional, mas se olharmos para o campeonato anterior, já se nota uma evolução qualitativa e competitiva, em todas as equipas e jogos respectivamente e, isso reflete-se no nível que liga apresenta atualmente. Por isso, considero que há ainda muito trabalho pela frente, mas esta liga já aparenta estar no bom caminho para evoluir competitivamente.

Como é a equipe do Hainan Boying e quais são as pretensões do clube na China League Two?

Como referi, anteriormente, as pretensões passam por fazer um campeonato tranquilo, assegurar a manutenção e criar bases sustentadas que permitam num futuro próximo a possibilidade de lutar por uma subida de divisão. A equipa é composta maioritariamente por jogadores jovens, com a junção de alguns jogadores muito experientes, que já passaram por divisões profissionais superiores, o que vai ao encontro das pretensões do clube em criar de uma forma sustentada o seu futuro.

Para você qual a importância dos treinadores estrangeiros no futebol chinês?

Como é obvio, considero extremamente valorosa para o futebol chinês, aliás desde a sua base inclusive. Falando do treinador português, cada vez mais se assume profissionalmente graças aos excelentes desempenhos de inúmeros profissionais em todos os cantos do mundo. A cultura futebolística está em nós, no nosso sangue e, a China procura neste momento recriar e incentivar a uma nova “era” da sua juventude, a paixão pelo futebol e, nós, treinadores portugueses e estrangeiros podemos oferecer isso.

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Pedro corre ao lado do capitão do Hainan, Li Gang.

Você poderia falar sobre as diferenças do seu trabalho como adjunto  e preparador físico no Hainan? E qual você considera mais importante?

As duas valências são importantíssimas para o jogador, não posso menosprezar uma em detrimento da outra por tudo o que cada uma oferece ao jogador. O que posso dizer baseia-se sim naquilo que faço e distingo como trabalho diário. Eu sou sem relutância nenhuma, um metodólogo de treino e, baseio a concessão do meu trabalho de uma forma holística, englobando a vertente técnica, tática, psicológica, sociológica e física em todos os momentos do treino que planifico e ponho em prática, por isso assumo o jogo como fulcral e principal motor da minha concepção metodológica. Como “preparador físico”, assumo um papel mais de guia-interventivo individual, quer ao nível da prevenção de lesão, como na respectiva recuperação, pois cada jogador é diferente dos demais.

Qual a avaliação que você faz da sua equipe em cinco jogos já disputados na liga? Nota-se alguma evolução desde o início da temporada?

Posso dizer que a equipa esta a evoluir para patamares bastante aceitáveis, apesar de termos obtido somente três vitórias em seis jogos. O facto de esta equipa ser praticamente nova e composta por poucos jogadores da época passada, denoto um aumento do equilíbrio defensivo, não pelos resultados propriamente ditos, mas também, porque as derrotas foram todas por um zero, mas pela consistência e união que tenho observado. E, claro a nível ofensivo temos sido muito perdulários, mas estamos a trabalhar para melhorar a nossa performance em todos os momentos do jogo.

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Pedro orienta crianças no futebol chinês.

Pretende um dia retornar ao futebol português? E tem o sonho de treinar um equipe portuguesa como treinador principal?

Claro que pretendo voltar ao futebol português e sei que quando voltar vai ser para um bom projeto, mas para já o futuro passa por construir aqui uma carreira que me permita evoluir profissional e pessoalmente, de forma a atingir o nível que desejo. Confesso que neste momento estou muito focado em realizar um excelente trabalho na China, aliás confio tanto em mim e sou tão exigente comigo, que sei que um dia vou treinar uma grande equipa de Portugal e se, também não pensasse dessa forma, mais valia fazer as malas e ir para casa, para a beira da minha família.

Qual a expectativa para o confronto com o compatriota Manuel Cajuda (treinador do Sichuan Longfor) no próximo sábado?

As expectativas são que irá certamente ser um jogo bastante difícil contra uma equipa que claramente definiu o objetivo de lutar pelo acesso ao play-off de promoção e, consequentemente uma subida de divisão. Uma coisa, para mim é extremamente importante, não podemos optar por uma estratégia que a assente em defender exclusivamente, pois aí estaremos mais perto de perder. Nós temos sim que defender bem, mas sermos fiéis à nossa “forma” de jogar e encarar todos os desafios. Temos, como costumo dizer, de sermos humildes, solidários e estarmos muito concentrados em todos os momentos do jogo, pois só assim poderemos levar de vencida o adversário. Mas para mim este jogo será bastante especial, pois vamos defrontar uma equipa liderada por uma referência do futebol português, um treinador com um percurso assinalável e claro vai ser um prazer poder conhecer pessoalmente o Manuel Cajuda. Vou-lhe desejar sorte claro, mas só para depois do nosso jogo, pois mais que ninguém, também quero ganhar (risos).

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Quais são os seus planos para o futuro na carreira?

Como disse anteriormente, o meu futuro próximo passa pela China, mas como tudo na vida o futebol é incerto, não posso dizer aonde estarei na próxima época. Vamos ver o que vai acontecer e até lá, trabalhar no máximo das minhas capacidades todos os dias.

Sabes algo sobre o nosso futebol brasileiro? Aceitaria um convite para trabalhar aqui?

Conheço alguma coisa e não tenho dúvidas que se surgisse uma proposta iria analisar com muita atenção, até porque o idioma não seria o problema. Claro, que teria outras barreiras que necessariamente teria de ultrapassar e me adaptar, mas não ponho de parte essa possibilidade.

Tem alguma mensagem final para os nossos leitores?

Continuem acompanhar este excelente site, também sobre o futebol chinês. Um abraço a todos.

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Pedro Rodrigues apontando para o sucesso, com muito trabalho e organização.
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